08.12.2005

Madeiro em Proença-a-Velha
para Cristina e Filip

Num dia quente e soalheiro de Inverno (uma combinação exótica para um polaco) viajava do Fundão para Monsanto. Conduzia por bonitas montanhas e aldeias sossegadas, avistando casas abandonadas e extensos olivais.

Passei por uma aldeia cujo nome não fixei. Pela janela do carro apenas me recordo de ter visto um homem sentado na praça principal, cuja imagem guardei na memória.

Algumas horas depois, no caminho de regresso, tive a mesma visão - o mesmo homem sentado no mesmo local, na mesma posição. Decidi parar.

Peguei na minha pesada máquina fotográfica Ucraniana e pedi autorização para lhe tirar uma fotografia – ele aceitou. Tirei a minha fotografia e de súbito apercebi-me da presença de duas mulheres com braçadas de flores. Foi o início de uma avalanche, chegaram mais e mais mulheres com flores...

Disseram para me juntar a elas. Segui-as até aos arredores da povoação onde vi carros de bois carregados com grandes troncos secos de árvores, e homens a preparar comida. Fui amavelmente convidado, ofereceram-me pão, sardinhas e vinho.

Com a sardinha numa mão e a máquina fotográfica na outra, tentei documentar o que estava ali a acontecer. A maravilhosa hospitalidade de pessoas amáveis, que convidaram com o coração aberto um desconhecido que se expressava dificilmente em português.

Foi assim o meu primeiro Madeiro em Proença-a-Velha, e espero sinceramente que não seja o último.

Texto de Marcin Górski



O Madeiro do Menino Jesus é uma tradição milenar que se mantém viva, neste dealbar do 3º milénio, em muitas terras do interior do país e em todas as freguesias do concelho de Idanha-a-Nova, como são exemplo as fotos apresentadas, tiradas em Dezembro de 2005 em Proença-a-Velha.

Madeiro, cepo, tronco, trafogueiro, galheiro, fogueira, ou simplesmente lume de Natal, são nomes por que continuam a ser conhecidos em Portugal estes resquícios de rituais sagrados que na antiguidade se faziam no solstício de Inverno, quando os nossos antepassados acendiam fogueiras em homenagem e prece ao Sol, para que este voltasse a brilhar forte e soberano, após um período em que o frio, a escuridão e as trevas pareciam ter tomado conta da natureza.

Rituais pagãos que sobreviveram a séculos e séculos de transformações sociais, políticas e religiosas e que hoje perduram, nestas terras raianas, numa integração plena com os rituais e tradições do cristianismo, como se dele fossem originários!

É na véspera de Natal, na noite da consoada, que o Madeiro é aceso, para que o Deus recém-nascido (O Sol dos povos primitivos, o Jesus dos Cristãos de hoje), possa aquecer-se nesta noite fria e gelada, enquanto os rapazes, ao redor da fogueira ou percorrendo as ruas da povoação, festejam e entoam cânticos em Seu louvor!

Mas se é verdade que é na noite de 24 que se acende o velho tronco, que deverá arder até ao Ano Novo, esse não é, no entanto, o Dia do Madeiro! Na grande maioria destas povoações o Dia do Madeiro é o dia 8 de Dezembro, o dia em que cerimoniosamente entra na povoação, com o povo a aderir de forma entusiástica, aplaudindo e festejando à sua passagem, incorporando-se e participando, como se de uma procissão se tratasse!

Toda a população participa, mas a organização do Madeiro pertence, segundo a tradição, aos rapazes solteiros, aos mancebos das “sortes”, àqueles que nesse ano foram dar o nome para a tropa! E, se é na tropa que os rapazes se fazem homens, como hoje o povo ainda diz, estamos aqui, sem dúvida, perante um ritual iniciático, uma prova de fogo e de força destes “influentes” do Madeiro, como em Proença se lhes chama, na sua passagem para o grupo dos homens! Rituais de um outro ritual.

Neste interior esquecido e despovoado, à falta de rapazes das sortes, são os mais velhos que assumem a responsabilidade da organização, para que o ritual se mantenha e a tradição perdure!

“Festum Osirid Nati” no antigo Egipto, “Despertar de Melqarth” na antiga Fenícia, “Natalis Solis invicti” na antiga Roma, são os antepassados do nosso “Madeiro” de hoje, como o serão também do “Ceppo” de Itália, do “Tréfoir” de França, do “Yule Clog” de Inglaterra, ou das fogueiras de natal da Letónia! O fogo, o calor e a luz dos homens, como homenagem ao fogo, ao calor e à luz Celestial!

Texto de João Adolfo Geraldes

exposicao: Dia de Madeiro em Proenca
datas: 9.12.2006 a te 7.01.2007
local: Galeria de Exposicao do Nucleo do Azeite, Proenca a Velha, Portugal

livro: Madeiro - Retratos de uma Tradicao Milenar
autores: M. Górski, J.A. Geraldes, J. Mugeiro
editor: Proencal, Magno Edicoes

 

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